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Pernalonga é o odisseu dos cartoons no sentido mais pejorativo que a palavra pode ter – trapaceiro. Enquanto Popeye é a truculência em pessoa e o Pica-Pau a maldade gratuita, Pernalonga é sofisticado na maldade, de “movimentos friamente calculados”. Pernalonga é um mestre dos disfarces e um manipulador das regras do jogo, que muda a favor do seu interesse sempre que necessário.

Daí minha comparação com Odisseu, que com o cavalo-de-tróia, um disfarce, um engodo, perverteu todas as regras da guerra da Antiguidade. O que deveria ser o terreno da estratégia que contamplava a coragem, honradez e valor dos combatentes virou palco para o jogo de astúcia onde esses outros valores poderiam ser subjugados em favor do resultado positivo obtido por qualquer meio necessário – Odisseu é o primeiro pragmático da História Ocidental, por isso ele revoluciona o pensamento grego (ao menos essa é a apreciação que muitos helenistas fazem).

Os dois episódios postados abaixo mostram situações em que Pernalonga é, do início ao fim, o protagonista das violências cometidas no desenho – no primeiro episódio é ele quem provoca o boxer e quem começa com a trapaça, no segundo ele é o ladrão assumido e confesso das cenouras do gigante, que passa por maus bocados em suas mãos.

Os defensores da tese de que os desenhos contemporâneos são mais violentos que os “de antigamente” ainda poderiam dizer que a trapaça do Pernalonga é uma forma de evitação da violência. Bom isso até poderia ser verdade se a trapaça que ele aplica tivesse apenas “efeito moral”, mas qualquer um que já viu o desenho sabe que não é isso o que acontece…

http://www.youtube.com/watch?v=V-Aae8ELnpI&feature=related

Pelo tom das coisas que tenho dito pode parecer que eu estou condenando a violência nos desenhos animados, e que esta minha argumentação sobre a violência presente nos desenhos antigos os condena tanto quanto condenaria os desenhos atuais. Isso não é verdade, fosse assim, neste caso específico, eu teria de condenar Odisseu, e Homero, por conseguinte, mas não faço nem uma coisa nem outra.

Odisseu e Pernalonga são trapaceiros sim, e daí?!

A trapaça e a violência existem no mundo, porque não apresentá-las às claras? Não é este o argumento a favor da educação sexual nas escolas? Que não adianta tampar o Sol com a peneira? Que o sexo está aí entre os jovens e adolescentes e que o nosso papel é educá-los para praticá-lo com responsabilidade e informação? Eu concordo com isso. Então, por que negar às crianças a chance de conhecer o engodo e a violência? Eles estão no mundo! Conhecê-los é uma forma de evitá-los o mais das vezes, ou de usá-los com responsabilidade quando inevitável (ok, forte demais, eu sei… “isso me escapuliu”…).

Um último episódio do Pernalonga pode ser muito útil para ilustrar este ponto: é a paródia da fábula da lebre e da tartaruga, no qual Pernalonga se dá muito mal, justamente por encontrar alguém mais esperto que ele, que neste caso se deixou apelar à truculência, seduzido pela sua superioridade física ante a Cecil, a tartaruga.

Eu não sei quanto ao resto das pessoas, mas eu tiro uma série de boas lições deste episódio, quase edificantes.