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Depois de falar um pouco de filosofês no post de ontem me dei conta que eu estou estudando no doutorado um dos grandes desconcordistas da história, Karl Popper.

Karl Popper ainda jovem

Não vou entrar muito em detalhes sobre a obra de Popper, primeiro porque eu teria uma tese de doutorado inteira para falar sobre isso, em segundo lugar porque sei que pouca gente se interessaria, em terceiro e último lugar porque se eu conseguir falar tudo o que interessa dentro de um post a CAPES pode querer cortar a minha bolsa.

Mas que o sujeito era um desconcordista isso ele era… enquanto todo mundo estava aderindo ao monismo ele era um pluralista, enquanto todos eram indutivistas ele era um dedutivista, quando o irracionalismo achou que tinha dado “a banda” final no racionalismo com a crítica do fundacionismo ele mostrou que o racionalismo não precisava ser fundacionista, enquanto poucos ainda defendiam a noção de verdade ele foi lá brigar por ela e descobriu coisas interessantíssimas sobre lógica, probabilidade, indeterminação, etc. etc. etc.

Mas talvez a sua contribuição mais famosa à Filosofia seja aquela também mais “desconcordista”, o principio da falseabilidade ou refutabilidade. Para ele este é o principal critério de demarcação científica (distinção sobre o que é e o que não é ciência), o princípio abreviadamente diz que uma teoria científica deve ser formulada de um modo que possa ser mostrada falsa (ou seja, refutada) por testes empíricos de suas conseqüências/previsões.

À época esta idéia era completamente desconcordante do que se defendia tanto nos meios acadêmicos quanto pelo senso comum, que acreditavam que a ciência, ou qualquer outra forma confiável de conhecimento deveria se basear na verificação. Apesar de academicamente muito das idéias de Popper a este respeito ter sobrevivido, o mesmo não pode ser dito do impacto de sua obra sobre o senso comum, que praticamente o ignorou, e continua achando que a ciência trata de conhecimento certo, verificável.

Na verdade em seus últimos escritos Popper deixa bem claro que o racionalismo crítico (a abordagem filosófica “fundada” por ele) defende a idéia de que o conhecimento só pode “crescer” se nós pudermos divergir uns dos outros, se tudo aquilo que for dado por certo puder ser transformado em objeto de crítica. Daí a objetividade científica deixa de ser algo “pertencente” ao cientista individual, mas recai sobre a comunidade científica, que é/deve ser colaborativa e crítica a um só tempo, como ele diz em A Lógica das Ciências Sociais (na tradução brasileira de 1978):

Popper já não tão jovem

a objetividade da ciência não é uma matéria dos cientistas individuais, porém, mais propriamente, o resultado social de sua crítica recíproca, da divisão hostil-amistosa de trabalho entre cientistas, ou sua cooperação e também sua competição. Pois esta razão depende, em parte, de um número de circunstâncias sociais e políticas que fazem possível a crítica.

Como isso é um post em um blog, e portanto precisa ser algo que tenha uma certa dose de entretenimento, vou mostrar, aproveitando a onda Walking Dead, como é possível fazer humor-nerd com qualquer coisa, inclusive com Popper e com minha própria tese de doutorado. Segue um quadrinho tosco que achei sobre Popper e a crise econômica mundial do ano passado (ou marolinha, segundo o Lula):

Retirado de Chaospet (http://chaospet.com/2009/09/24/143-zombie-karl-popper/)

A propósito, ninguém precisa achar graça da tirinha, vocês podem rir de mim por ter achado graça dela – já é algum entretenimento… espero!