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Sim, Natal é sobre presentes. E nunca foi diferente. Estou cansado de ouvir a historinha que virou senso comum, que a troca de presentes é uma “perversão” do “verdadeiro” espírito natalino.

É só que faltam fazer com o pobre do Papai Noel (imagem retirada de http://ideia-vazia.blogspot.com/)
Natal nunca teve a ver com compras, e é aí que eu acho que as pessoas perderam o fio de meada. Presentear e ser presenteado é algo muito diferente de se comprar um presente… Papai Noel, por exemplo, não compra presentes e aí está a sua força simbólica. Para a minha infância ele era uma pessoa bacana que eu nunca havia visto, e que nunca havia me visto, e que ainda assim me dava um presente só porque eu era um cara legal (não adiantava ser bonzinho só para ganhar presente, era preciso ser “bonzinho de verdade”), e esse presente não era comprado, era fabricado por ele mesmo! Agradeço muito a meus pais e minha família por terem sustentado essa ilusão quando eu era criança, porque a partir disso eu pude entender melhor o que é um presente e que o valor de um não tem muito a ver com o custo em dinheiro.
Quem acha que presentes só têm a ver com compras, dinheiro e “capitalismo” está completamente por fora do que é Natal e só pode mesmo ter motivos para detestar a data. Ganhar um presente, dar um presente, são coisas que não têm nada a ver necessariamente com comprar nada, é só as vezes que essas coisas coincidem. Presentear com algo que se fez, dar algo que é seu e significativo, são outras formas de presentear e que podem agradar tanto ou mais que um presente comprado.
Mas qual o mal que há num presente comprado? Nenhum, se é um presente de verdade… porque quando você dá algo de seu para alguém você está em parte fazendo o sacrifício deste algo em favor de alguém. Quando você de próprio punho fabrica algo para alguém você está sacrificando o seu tempo e o seu trabalho por alguém. O mesmo ocorre com o presente comprado, pois o dinheiro é para a grande maioria de nós o fruto do nosso trabalho, que nós sacrificamos com um sorriso no rosto ao acreditarmos que com isso estaremos despertando um sorriso também no rosto de alguém que amamos.
Aqui alguém poderia me dizer: “Ai, que papo brabo… falar de sacrifício no Natal! Que palavra pesada!”, acho quem diz isso também não entendeu do que se trata o Natal. E também não entendeu do que se trata boa parte da vida. Nós o tempo todo fazemos sacrifícios, concessões, desistências, muito felizes por tê-los feito: quando se aceita ter menos para dar mais para um filho; quando se recusa uma promoção para podermos ficar mais tempo com a família; quando se sacrifica o tempo com a família e se aceita uma promoção para poder garantir um futuro melhor para todos; quando um amigo endividado nos pede dinheiro que sabemos que nunca mais veremos, mas que sabemos que vai salvá-lo; quando arriscamos perder uma amizade que nos é cara porque recorremos a um amigo num momento de dificuldade para não deixar faltar nada a nossos filhos; etc. etc. etc.
Penso que é justamente esta dose de sacrifício feliz, nem que seja do sacrifício do tempo que a pessoa dispensou pensando em nós para presentear (“Você lembrou de mim? Que bom!”), que nos faz reconhecer o valor de um presente que damos ou recebemos, é o que gera o famoso “não precisava”, e outras formas de agradecimento quando recebemos um presente.
Um presente é uma forma especial de dizer: eu amo você, e abro mão de ter isso e isso para que você possa ter – sem ressentimentos, sem cobranças, sem expectativas – simplesmente porque gosto de você e gostaria de fazer você feliz. Isso é algo muito bonito e muito raro. As pessoas normalmente não o fazem, elas fazem trocas, dão esperando receber. Isso não não é presentear, isso é comércio – e não é disso que o Natal nos fala.
O Natal nos fala de uma renúncia impensável, de um amor incomensurável, de uma entrega absoluta. Eu sou cristão, sou católico, mas acho que qualquer um pode entender o sentido do Natal se fizer um pequeno esforço para entender no que os cristãos acreditam sobre o significado do evento que justifica essa data comemorativa. Mesmo um ateu convicto, mas com imaginação, poderia alcançar o significado disso.
O Natal é a história do Deus que se fez homem, de um ser imortal, onipotente, onisciente, onipresente que decide que vai tornar-se perecível, fraco, limitado, um pedaço de carne, para com isso salvar aqueles que ama, para resgatá-los da finitude, da fraqueza, da limitação.
Ninguém precisa acreditar nisso, nem na idéia geral, nem nos meandros da história, basta que se acredite que alguém acredita nisso. Se você é capaz de acreditar que é possível que se acredite em um amor assim incondicional, desinteressado, que faz com que alguém queira se transformar, transformar a si próprio, num presente vivo para aqueles que ama, não importa quem eles sejam, o quão “inferiores” eles sejam , o quão abjeta seja sua condição, então você é capaz de entender do que se trata o Natal, do que se trata Papai Noel, do que se tratam presentes, do que se tratam os sacrifícios felizes e desinteressados que a todo momento ocorrem na face da Terra, e que fazem de cada um desses momentos Natal.

Pingback: Natal é sobre crianças! « Desconcordo
Nilson,
Em primeiro lugar queria dizer que estou com saudades suas. Por favor, vê se desdesaparece logo….
Em segundo lugar, queria falar sobre o texto. Assim como a Carol, eu não gosto do Natal, pelos mesmos motivos que ela, e outros mais. Acho até que esse ano, passei a odiar menos o Natal, e aprendi a ficar menos deprimida com a data. Mas apesar de não gostar do Natal, seu texto me comoveu, e queria te pedir para publicá-lo no Jornadas, afinal os públicos destes blogs se confluem, mas não se resumem.
Um grande beijo
Amanda
Ps: Vamos marcar um encontro com o povo, na minha casa ou na Lapa, ou em ambos. Que vc acha?
Oi Amanda!
Desculpe essa demora toda em te responder, estava ocupado com a tese e acabei dando muito pouca atenção aos assuntos aqui na internet.
Acho que já está meio fora de época, mas se ainda assim você quiser publicar o texto, fica a vontade. Se preferir que eu mesmo publique no Jornadas é só dizer.
Beijo e até breve!
P.S.: Já desdesapareci! Marquemos então!
Bom, EU não gosto de Natal.
E não é por nada disso que você disse, apesar de concordar com tantos pontos… É pelo tom contratual e obrigatório que existe na data. É como se UM dia por ano, você tivesse que ser fraterno, gentil e amável; fazer “sacrifícios” e abrir concessões.
Natal me incomoda como “acento preferencial” de transporte coletivo me incomoda: Não importa a cor do banquinho, o ideal é que levantemos frente a cada velhinho, grávida, deficiente ou a quem julgarmos mais “frágeis” do que nós. Assim como acento preferencial, Natal me incomoda por meio que justificar uma “falha de caráter” da humanidade. Quando você está num acento comum, tudo bem não se levantar ao outro porque você é uma “boa pessoa”, afinal, sempre “cede” seu lugar quando está em um acento preferencial… Ou ainda: Você não faz nada de interessante por ninguém, mas tudo bem por que você é uma “boa pessoa”, pois no Natal você se regenera por encher de coisas boas a vida de amigos, família, “desprivilegiados”, etc, etc…
E esse é meu argumento racional para explicar toda vez que alguém consternado me pergunta pq eu não gosto de Natal…
Mas esse post foi tenso. Foi afetivo, comoveu e deu banho de balde no meu argumento. Eu não sei se você conseguiu traduzir espírito de Natal, mas com certeza acordou o que o tal do espírito deveria ter me inspirado e até então não tinha acontecido. Vamos ver quantos dias do ano isso dura…
Beijos e porque não?!
Feliz Natal!
Oi Carol,
Pois é, eu teimo em ainda gostar do Natal, mas isso não quer dizer muito, eu sou teimoso mesmo – uma mula empacada para ser mais preciso.
Mas tenho que conceder, o que você falou é algo muito difícil de lidar… que o Natal precise, por definição, durar só um dia vai, mas que o “espírito” natalino se esvaneça com o fim do dia só parece provar que, na maioria dos casos, de fato ele nunca esteve lá – não passava de auto-comiseração, de auto-indulgência. A data do dia 25/12 parece que ficou muito hipertrofiada neste sentido, é uma pena.
Depois que reli o post é que eu vi o tamanho da minha pretensão nos parágrafos finais, e realmente não me parece que eu tenha realmente traduzido o espírito de natal, ainda que eu ache que tenha chegado o mais longe que consigo. De todo modo achei ótimo que isso possa ter despertado em você algo de novo sobre isso. Curioso que há dias atrás era eu quem lhe dizia algo muito parecido
Beijos e um ótimo dia 26 de dezembro, que ele seja ainda Natal!