
Heimdall afro
No final do ano passado surgiu uma polêmica sobre o intérprete de um dos personagens do filme Thor. Idris Elba interpretou Heimdall, um dos deuses nórdicos. A polêmica veio por parte de alguns puristas defensores da cultura nórdica, que se sentiram ofendidos com a forma que a figura lendária foi tratada.
Provavelmente isso soou para eles como o Machado de Assis (o Mago do Cosme Velho) branco, da Caixa Econômica, soou para alguns brasileiros (e até eu, mesmo normalmente contrário a esta paranoia étnica, a esta patrulha do politicamente correto, me situo entre eles).
Eu concordo, por exemplo, com a opinião que esse tipo de incômodo é bobeira, que o filme é tão e somente uma adaptação, e que num filme essas coisas todas valem (licenças poéticas, licenças comerciais, o politicamente correto, etc.), mas isso também acontece no caso da propaganda com o Machado?
Francamente, eu não consigo ver necessariamente racismo ou hipocrisia, nem nas pessoas que se incomodam com o Machado branco, nem naquelas que se incomodam com o Heimdall negro – não acho que seja simples patrulha ideológica. É um desconforto por uma retratação errônea de algo que é obviamente diferente, é como escrever VERDE, ou AZUL.
Mesmo guardadas as proporções entre os dois casos, uma vez que o Machado era uma pessoa, e Heimdall uma figura mitológica, e portanto a retratação incorreta do Machado devesse insultar mais que a do Heimdall, penso que a diferença entre os casos não se resume a isso. Se víssemos, por exemplo, um saci-pererê caucasiano, sei lá… penso que o efeito seria muito parecido.
E daí eu acho que a diferença entre os dois casos está justamente não no incômodo de quem viu, mas na intenção de quem criou essas “aberrações” representacionais.
Não se escolhe um Heimdall negro pelo talento do ator, ou para atender alguma demanda interna de roteiro ou narrativa. Escolhe-se por alguma demanda social, nem que sejam as tais políticas de ação afirmativa. Coisa que do meu ponto de vista só faz afirmar o preconceito, mesmo onde ele não existe.
Por outro lado não se esquece que Machado de Assis era mulato. No máximo alguém poderia não saber disso e pressupor (sabe-se lá porque!) que ele fosse branco. E de novo caímos aí no preconceito de cor.
O primeiro caso, o do Heimdall, pode ainda se dever a uma opção demagógica, e longe de ser hipócrita é simplesmente oportunista. Fere-se valores importantes para um grupo minoritário (os puristas nórdicos) para se agradar um grupo bem representado politicamente.
No segundo caso, são poucas as saídas para não se interpretar o ocorrido racismo (por omissão, ou subsunção), nenhuma delas nobre. Eu só consigo pensar em ignorância no sentido mais puro da palavra, o marqueteiro simplesmente ignorava a cor de pele do Machado, o que é absolutamente lamentável no contexto.

Oi Nilson,
Primeiramente queria te dizer que adorei sua “repaginada” aqui no blog, ficou super clean!
Fiquei sabendo dessa polêmica do Machado de Assis branco, o comercial foi retirado do ar por conta disso. Sinceramente acredito que tenham feito a adaptação de mulato para pardo e do pardo para moreno com a intenção de tornar o comercial mais aceito e o tiro saiu pela culatra… Como você deve perceber, não é tão comum, principalmente em comerciais do ramo financeiro, pessoas negras como foco. Enfim, tendo em vista que a Miss Universo é uma Negra linda, os EUA elegeram um negro, acho (e é achismo mesmo) que as pessoas estão questionando mais seus pre-conceitos raciais.
Quanto ao Heimdall Afro, confesso que estranhei, mas o Idris Elba mandou super bem!
Beijos
Oi, Tahiana,
Obrigado, eu gastei um tempo para pensar nessa “plástica” que fiz no Desconcordo. Ainda bem que alguém reparou, e gostou
Eu acho muito boas essas mudanças que você apontou (Obama, Leila Lopes, etc.), e acho que elas são para ficar. Eu estava morando nos EUA quando o Obama foi eleito e realmente foi um evento divisor de águas, a clima era absolutamente comparável à eleição do Lula.
Mas me entristece ver que é muito difícil escapar, por um lado, da patrulha ideológica, que vê preconceito em tudo; e por outro da pregação dos “orgulhos”, as afirmações de identidade x ou y. Isso causa tristeza em mim porque entendo que orgulho e afirmação de identidade são justamente as coisas que estão na base dos preconceitos.
Neste post eu tentei fazer um exercício de olhar para essa problemática sem a lente do “8 ou 80″, de ver que para além da paranoia existe algo de legitimo por trás de certas reivindicações, às vezes é algum oportunismo, as vezes alguma indignação plenamente justificada.
Obrigado pelo comentário!
Beijo
PS.: Falei do filme, mas não assisti!
(que vergonha!)