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Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954)

Muito se fala de invasão de privacidade, de como nossas vidas particulares são devassadas, bisbilhotadas, invadidas pelo olhar e curiosidade alheios.

A invasão de privacidade pressupõe minimamente duas coisas: um invasor, e um espaço privado a ser invadido.

O fofoqueiro, o invasor, tem algo de espreitador, ele está escondido, na fresta da cortina, está atrás do “sorria, você está sendo filmado”. Ele está pronto para ver o aquilo que você não queira mostrar, ávido para devassar o que você queria esconder.

Ele está sempre de tocaia esperando um deslize da presa. A fofoca é um tipo de caça.

Por isso o fofoqueiro  tem um quê de predador, predador de intimidades, de segredos. Ele não quer perder sua presa, mas ele também não pode se deixar ser visto por ela com o risco dela lhe escapar, ou simplesmente dela se transmutar em algo diferente.

Belos eram os dias em que a caça do fofoqueiro era farta, que todos tínhamos nossos segredos e precisávamos de um terreno que julgássemos indevassável para fazer o indizível.

Redes como o Twitter, Facebook, Panoramio e Flicker (dentre muitas outras) usam o recurso de geolocalização de seus usuários,

Hoje em dia parece só haver espaço para o tuíte. E para o tuíte geolocalizado. Absolutamente devassado, e qualquer coisa se tornou dizível em uns poucos caracteres.

As intimidades hoje se evadem, não há mais como invadi-las, pois elas não se escondem, não se cercam. A privacidade de um Big Brother é intransponível, simplesmente porque ela não existe, e se existiu um dia evadiu-se.

Coitado do fofoqueiro dos dias de hoje… Já não é tão fácil invadir privacidades, já não é tão fácil encontrar intimidades, os segredos estão escassos na savana.

De caçada, de esporte, a fofoca hoje é um ofício artístico, ou científico, é preciso muita sensibilidade ou muita ciência para descobrir uma intimidade ainda não desnudada.


A ideia deste post veio depois que eu vi o poder da geolocalização via aplicativos como o Fousquare e Wikitude. Confesso que fiquei assustado, ainda mais quando descobri que é default no Twitter a opção de informar sua localização.

Seguem aqui dois outros posts de outros blogs aqui do WordPress, sobre esse fenômeno da evasão de privacidade:

http://ensaius.wordpress.com/2008/01/28/cultura-digital-evasao-de-privacidade-e-faca-voce-mesmo/
http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2011/05/15/evasao-de-privacidade/